Carros novos a combustão depois de 2035? Possibilidade ganha força

A União Europeia tinha traçado uma linha clara para 2035: os automóveis novos teriam de reduzir as emissões de CO2 em 100% face aos valores de 2021. Mas essa meta está cada vez mais perto de ser alterada.

Os negociadores dos grupos do Partido Popular Europeu (PPE), dos Socialistas e Democratas (S&D) e do Renew chegaram a um entendimento que poderá permitir aos construtores continuar a vender automóveis com motores de combustão depois daquela data. Incluindo modelos exclusivamente a gasolina ou gasóleo.

O novo entendimento prevê uma redução efetiva de 87,5% das emissões médias de CO2 dos automóveis novos, face a 2021.

fábrica nissan
© Nissan A redução das emissões médias continua a ser uma obrigação para os construtores, mesmo que este entendimento venha a ser aprovado e integrado na legislação europeia.

A este valor acresce a possibilidade de compensar outros 7,5 pontos percentuais através da utilização de aço de baixas emissões produzido na União Europeia. No total, os fabricantes poderão atingir uma redução contabilística de 95%, ficando os restantes 5% dispensados de compensação, segundo um documento a que a Bloomberg teve acesso.

O que representam os 5% que sobram?

É esta margem de 5%, dispensada de compensação, que poderá permitir a continuidade da comercialização de automóveis exclusivamente a combustão, além dos híbridos.

Mas o que significam realmente estes valores? Vamos a contas. Imaginemos que um construtor tinha uma média de emissões de 160 g/km de CO2 em 2021.

Com a meta original de redução de 100%, o objetivo para 2035 seria de 0 g/km, logo, este construtor só poderia vender carros 100% elétricos a bateria ou com pilha de combustível de hidrogénio. Com o novo entendimento, que prevê uma redução efetiva de 87,5%, a média de CO2 poderia chegar até aos 20 g/km.

A este valor acresce a possibilidade de compensar 7,5 pontos percentuais da meta original através de créditos associados ao aço de baixas emissões. No nosso exemplo, isso equivale a 12 g/km. Ou seja, o fabricante poderia continuar a emitir 20 g/km, mas, após a compensação, contabilizaria apenas 8 g/km. São precisamente os 5% da meta original que ficam por compensar.

PUBLICIDADE

Híbridos até 20 mil euros

Se não tem onde carregar, os híbridos convencionais são as melhores opções para poupar combustível.

E como seria possível continuar a vender carros a combustão?

Imaginemos que um construtor vendia 100 automóveis novos: 88 elétricos, com emissões de 0 g/km, e 12 modelos a gasolina, cada um com emissões de 160 g/km. A média da frota seria de 19,2 g/km, abaixo dos 20 g/km do nosso exemplo, admitindo a obtenção dos créditos necessários.

É um exemplo simplificado, que não contempla todos os mecanismos de cálculo previstos na legislação, mas demonstra como seria possível continuar a vender alguns automóveis exclusivamente a combustão.

Neste cenário, a maioria teria de continuar a ser elétrica, embora a presença de híbridos com emissões mais baixas possa alterar esta proporção.

Por isso, os 5% não representam uma quota fixa de automóveis a gasolina ou gasóleo que poderão continuar à venda. São uma margem nas metas de emissões, não uma percentagem de vendas. Na prática, os construtores terão de continuar a reduzir substancialmente as emissões das suas gamas.

Mais um recuo das metas originais

A proposta representa mais um recuo relativamente às regras aprovadas em 2023. Em dezembro de 2025, a Comissão Europeia já tinha proposto reduzir a meta de 100% para 90%, permitindo compensar os restantes 10% através de aço de baixas emissões produzido na União e de combustíveis renováveis. O novo entendimento vai mais longe ao dispensar a compensação de cinco pontos percentuais.

Surge também poucos dias depois de a Alemanha e a França terem chegado a um acordo para defender uma redução de 90% das emissões a partir de 2035, mas sem qualquer obrigação de compensar os restantes 10%.

Manfred Weber, presidente do grupo do PPE, considera que o compromisso representa uma vitória para a indústria automóvel europeia e para as centenas de milhares de trabalhadores do setor, segundo declarações citadas pela Automotive News Europe.

Ainda falta a aprovação final

Apesar do entendimento político, as novas regras estão longe de ser definitivas. O compromisso terá ainda de ser aprovado pelos próprios grupos parlamentares e pelo Parlamento Europeu, seguindo-se as negociações com os Estados-Membros.

O documento contempla também outras medidas, incluindo maior flexibilidade nos «supercréditos» atribuídos aos automóveis elétricos pequenos e eficientes e uma redução da meta de emissões dos veículos comerciais ligeiros para 2035.

O entendimento abre ainda a possibilidade de reconhecer como veículos de emissões nulas determinados automóveis que funcionem exclusivamente com combustíveis renováveis, incluindo combustíveis sintéticos e biocombustíveis avançados, mediante condições específicas.

O que antes parecia uma data definitiva para o fim dos automóveis novos com motores de combustão está, assim, cada vez mais em aberto.

O post Carros novos a combustão depois de 2035? Possibilidade ganha força apareceu primeiro em Razão Automóvel.